Cuba: uma surpreendente viagem no tempo 🇨🇺 (1ª parte)

Para nós, as primeiras horas, depois de aterrarmos em cuba, começam como quem tenta ligar um carro num dia de muito gelo! A princípio o carro nem sequer dá sinal, só grunhidos, mas se insistirmos e a bateria não morrer o motor eventualmente pega! Depois, a viatura vai aquecendo e, gradualmente, a condução torna-se mais suave. Mas no início foi difícil… estava tudo embaciado e empatado! As malas tardam em aparecer, a fila na casa de câmbio não anda e os atenciosos enganadores profissionais de turistas começam a montar o cerco! Estes “facilitadores” ou jineteiros, como são chamados aqui, são super solícitos em ajudar! Apresentam um impressionante arsenal de artimanhas com o único intuito de nos separar da carteira 💸! Educadamente foram dispensados. Assim que trocamos algum dinheiro negociamos o transporte do aeroporto para Matanzas e,  surpreendentemente, acabamos por conseguir dois lugares vagos num mini-autocarro de uma empresa privada que faz o transfere de turistas para Varadero! Quatro horas depois, estávamos a tomar o nosso primeiro café cubano em Matanzas ☕️.

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As principais ruas estavam quase despidas, as paredes dos velhos edifícios lapidadas, nos passeios menos de um punhado de turistas, no parque da cidade um pequeno grupo de malfeitores, os famosos jineteiros, refugia-se do sol tórrido na sombra das acácias e, entretanto, os famosos carros americanos da década 50, tão charmosos como poluentes, vão passando vagarosamente por nós, exibem cores vistosas mas largam um rastro de petróleo negro asfixiante.

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Já sem malas, calcorreamos Matanzas. O centro histórico é pequeno mas culturalmente rico, existem alguns museus modestos, aliás a própria cidade, para nós, é como se fosse um museu a céu aberto! Remete-nos para a época pré-tecnológica! As praças têm alguns edifícios restaurados mas no geral muito envelhecidos, as ruas e ruelas são pouco movimentadas mas, ainda assim, animadas com salões de dança e música como a rumba, o endémico danzón e agora, mais recentemente, o reggaeton 💃🏾. O teatro Sauto e a sala de concertos José White, mereceram a nossa visita assim como algumas oficinas de arte mas, obviamente, são os orgulhosos e interessantes habitantes desta cidadela quem mais nos encanta!

A hora de abalar para Cienfuegos chegou, mais cedo que tarde, e com tantos mergulhos na, bastante aceitável, praia do Coral acabamos por perder o autocarro! Entretanto, os intransigentes taxistas oferecem os seus serviços a preços absurdos! Os táxis são ratoeiras com rodas para turistas. Mas, por mero acaso, surge um casal francês que não entra em negociações e paga o que for preciso porque tem dinheiro e não tem tempo a perder. Partilhamos o táxi com eles a troco do preço que pagaríamos no autocarro. Cinco horas depois, à chegada a Cienfuegos, percebesse imediatamente porque lhe chamam a pérola do sul! A cidade é elegante, tem o espírito da arquitectura francesa renascentista e o clima festivo caribenho! É cercada por uma baía natural encantadora, todavia as praias não são nada de especial, a frente-mar tem o charme dos edifícios coloniais franceses, o azul marinho do mar e o calor da rumba cubana… Um encanto 🎉!

Depois de bebermos um coquetel no terraço com vista para o mar no luxuoso Palácio de Valle fomos apanhados de surpresa pelo famoso Carnaval de Cienfuegos e por uma tempestade tropical. Fugimos para um abrigo onde partilhamos uma mesa e umas cervejas com simpáticos cubanos e, enquanto isso, no meio da rua, os foliões desafiavam a chuva ao ritmo do reggeaton 🍻 🎉.

Já em Trinidade, espreitamos o museu dos rebeldes, o museu da história nacional, o centro histórico e algumas galerias de arte. Trinidade é uma viagem no tempo ao sec. IXX. As ruas charmosas e encantadoras são calcorreadas a pé, ou em carroças puxadas a cavalo, aliás, a cidade cheira a equídeos e a esterco o que requer alguma destreza para evitar as minas anti-sapatos engraxados! 🐎

Na primeira noite em Trinidade fomos jantar a um restaurante com mais classe que o costume e, para nossa surpresa, pumba… a primeira diarreia em cuba! Eu que arrisquei tudo, até os legumes cruz comi, escapei ileso, no entanto, a Ana passou o resto da noite a dois passos da casa de banho 🚽! Para recuperar das maleitas passamos o dia seguinte na praia Ancon. A água é muito quente mas nem sempre translucida, tem um bom areal mas é difícil encontrar a sombra de um coqueiro. Na nossa opinião é uma praia razoável que está sobrevalorizada como, aliás, muitas outras praias em cuba. No regresso a casa,  tínhamos um sumo de goiaba fresco à nossa espera no terraço com vista para o parque protegido pela UNESCO, Valley de los Ingenios. Simpáticos os nossos hospedeiros cubanos! Não sei se por preguiça, moleza ou inebriados pela paisagem e pela brisa quente do anoitecer… extasiados, recostámo-nos na espreguiçadeira completamente felizes no silêncio um do outro. No dia seguinte, encontrámo-nos debaixo de um imenso céu azul, daqueles que não deixa prever a menor possibilidade de chuva! Por isso, nas nossas roupas de verão e praia, sob o sol da manhã montamos dois cavalos, a Estrela e o Pancho, e a trote entramos pelo deslumbrante Valley de los Ingenios a dentro. O início foi um pouco atribulado, a égua da Ana arranca endiabrada como se estivesse numa corrida e só parou porque o guia conseguiu apanhá-la! A Estrela era nova e tinha uma condução semi-automática! Por isso, o guia sugeriu uma troca, a Ana montou o simpático e gigante Pancho e eu segui caminho a cavalo na intrépida Estrela. Éramos perfeitos um para o outro, eu nunca tinha montado e ela também não sabia muito bem o que isso era! Contra todas as expectativas correu bem! Paramos em cascatas com piscinas naturais para mergulhar e nadar em água de rio gelada, paramos para beber um café local e experimentar os famosos charutos artesanais cubanos e voltamos a montar para atravessar vales, rios e aldeias. Deslumbrante!  De regresso a Trinidade, os nossos amigos equídeos, Estrela e Pancho, foram almoçar e descansar ao passo que nós fomos desentorpecer as pernas ao Cerro de la Vigia. A vista do topo é lindíssima mas, infelizmente, estava a trovoar, por conseguinte, não conseguimos as melhores fotografias nem, tão pouco, manter as nossas roupas secas ⛈…

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No dia seguinte, a chegada a Camaguey de autocarro foi, sem surpresa, atribulada. O nosso simpático hospedeiro de Trinidade reservou uma casa para nós em Camaguey incluindo o serviço de transfere da estação. Assim, quando chegamos, tínhamos o taxista à nossa espera mais um batalhão de embustores que se acotovelavam para darem as “boas vindas” aos turistas! O taxista sabia algumas palavras em Português! Esteve em Angola, no Huambo, há 17 anos atrás  a ensinar Português durante a guerra civil. Subitamente, o táxi parou mas, para nosso assombro, na morada errada! Disse-nos que a outra casa já estava ocupada e, por isso, teríamos de ficar aqui e pagar pelo transfere! Esta artimanha é recorrente, contudo, acabamos por ficar na inesperada mas surpreendentemente agradável casa. A chuva forte e os raios ensurdecedores fizeram-nos reféns no quarto até ao anoitecer. A teimosa  tempestade, eventualmente, passou e ainda fomos a tempo de jantar, assistir a um filme numa das várias salas de cinema na famosa rua “la calle de los cines” e, ainda, por mero acaso, assistir a um serão de poesia e rumba cubana na praça ao largo da Iglesia de Nuestra Senõra de la Soledad.

No dia seguinte, na praça da república, saltamos de banca em banca para tentar variar um pouco o nosso pequeno-almoço 🍕. Nunca percebemos como funcionam os horários destes estabelecimentos! Alguns dizem que abrem quando chegam e fecham quando se vão embora! A tradicional cozinha cubana é muito simples e pouco sofisticada, de modo que, a nossa barriga estava aborrecida e o apetite comprometido! Todavia, para ser justo,os sumos naturais de fruta são saborosos. A fruta é pouco variada mas a que existe é óptima, principalmente os abacates e as goiabas. Passamos o resto do dia a vaguear pelas ruas e ruelas. A cidade é incrivelmente encantadora, tem um atmosfera muito agradável e um ritmo particular. Visitamos várias galerias de arte, conhecemos alguns artistas e artesãos que nos falaram das suas obras, da arte em cuba e da vida dos cubanos…

Maravilhados, rumamos para sul e após 7 horas de confinamento, o nosso autocarro chega a Santiago de Cuba. Encontramos o centro histórico com um aspecto ligeiramente negligenciado. No parque Céspedes, observamos um caleidoscópio de transeuntes, músicos, enganadores, engatadores, vendedores, facilitadores, comerciantes, mendigos, turistas e outras personagens bizarras! Debaixo de um sol absolutamente infernal ☀️, calcorreamos as ruas quentes e poluídas. Algumas avenidas têm uma grande inclinação e sempre que um daqueles carros bonitos dos anos 50 passa por nós ficamos um minuto em apneia… Assim, desaceleramos o paço, e com vagar acertamos o nosso ritmo com o da cidade. Santiago tem uma atmosfera caribenha cosmopolita onde se misturam culturas Afro-caribenhas, do Haiti, da República Dominicana entre outras. Os poucos bancos com sombra, para nós, são bóias de salvamento onde nos refugiamos do calor e descansamos as pernas maçadas pelas encostas. Mas onde, também, aproveitamos para mergulhar o olhar neste interessante macroscópico…  à nossa volta, deambulam pessoas animados pelos mojitos ou pelo bacardi🍸, outros em transe dançam ao ritmo da salsa e da rumba, uns quantos descansam perpétuamente atordoados pelo sol, outros parecem intoxicados pelo monóxido de carbono, uns quantos estão visivelmente sedados pelos charutos cubanos e outros, simplesmente, aglomeram-se para jogar ou ver jogar xadrez! Aqui, ninguém parece conhecer a “pressa”!

Em Santiago, o assédio dos jineteiros é mais frequente e persistente! Todos eles têm histórias muito parecidas. São todos campeões de alguma coisa, boxe, xadrez, atletismo… alguns auto-intitulam professores universitários e outros há que se dizem senhores de bens e posses 😮! Chegamos, inclusive, a conhecer vários campeões nacionais de boxe! Alguns, curiosamente, competiam na mesma categoria!  É com cada nocaute 🤕! A cada 5 minutos… lá aparecia mais um campeão e lá íamos nós outra vez… Invariavelmente a história repetia-se com a finalidade única de nos sacar um jantar, uns copos, umas notas ou somente umas peças de roupa! Felizmente, este tipo de assedio não nos impediu de conhecer pessoas e histórias engraçadas! Entretanto, o calor, também, não nos dava tréguas e para me livrar dele e de todos os sintomas de uma insolação tive de me refugiar no quarto com o AC a providenciar temperaturas siberianas ❄️ enquanto a Ana tratava da minha hidratação. Depois de restabelecido, apanhamos  um caminhão de transporte de passageiros 🚛 e visitamos o castelo San Pedro de la Roca que tem demasiadas escadas, mas a vista para o mar vale o esfalfamento… No regresso ainda chegamos a tempo de dar um salto à estação dos autocarros Via Azul, mas só para confirmar que em Cuba só há um serviço pior e mais caro que o da internet! A Via Azul oferece um serviço desactualizado de 5ª categoria pelo preço das melhores operadoras mundiais! É preciso passar uma hora numa fila caótica com chico-espertos a tentarem manobras de ultrapassagem pouco cívicas, só para depois, finalmente, nos dizerem – “está esgotado, não temos mais bilhetes para hoje, nem para amanhã nem para os próximos 3 dias 😤…”.

Sem opções, combinamos com um jineteiro o preço de um táxi para Baracoa. Afinal, qual é a probabilidade das coisas correrem mal? No dia seguinte, às 8 horas da manhã, o indivíduo aparece com más notícias! Surpreendidos? Nem por isso. O táxi que nós tínhamos reservado, aparentemente, encheu com outros turistas e, entretanto,  o Jineteiro reservou outro carro mas pelo dobro do preço acordado! Não é que estas pessoas não tenham ética ou princípios, eles têm, mas são os princípios do século passado, anteriores à declaração dos direitos humanos! – Não, obrigado; dissemos nós e, com um casal Alemão que estava a ser vítima do mesmo enredo, partilhamos um táxi pelos 4 até Guantanamo onde, supostamente, seria mais fácil apanhar um camião de passageiros para Baracoa. Por sorte o velho táxi, um monte de sucata enferrujada com rodas não se desmontou pelo caminho e, apesar dos gemidos e barulhos estranhos, devagarinho, acabamos mesmo por chegar a Guantanamo 🚕! Mas se chegar foi difícil, sair foi muito pior! Primeiro porque os transportes em Guantanamo não têm horários nem rotas definidas. Partem quando enchem e vão para onde a maioria das pessoas quiser ir! Quem não estiver satisfeito com o destino tem de abandonar o transporte apesar de ter perdido o dia todo à espera! Segundo, não há preços definidos nem margem de negociação para turistas! Salafrários do mais elevado gabarito! Quando já estávamos a ponderar pernoitar aqui surgiram 2 espanhóis que visitavam Cuba pela 4ª vez! Em pouco tempo negociaram o lugar deles, o nosso, do casal alemão e de uns poucos cubanos num pequeno camião de caixa aberta. Contra todas as expectativas, e apertados como sardinhas em lata, seguimos viagem… Sempre que os camponeses apareciam na berma da estrada com produtos locais a carroça parava… e, para nós, era uma oportunidade para comprar café, manteiga de cacau e os melhores ananases de sempre 🍍! Serra a cima e serra a baixo as marcas de destruição do furacão do ano passado acentuam-se a cada quilómetro e, de repente, ao submergirmos do que resta da floresta somos informados pela brisa do mar de que, o nosso destino, Barracoa está ao virar da próxima curva.

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Continua 🚌… 🇨🇺

danielribas, agosto de 2017

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