Cuba 🇨🇺 (2ª parte)

A caixa enferrujada com rodas circula vagarosamente e ao entrar pela frente marítima a dentro a urbanização adensa-se denunciando a proximidade do centro de Baracoa. Inesperadamente e para nosso espanto, começamos a ser perseguidos por um ciclista que pedala ferozmente no nosso encalço 🚴🏾.  O homem entra num sprint desenfreado e, a pedalar de pé, vai bradejando e acenando para nós visivelmente em dificuldades para acompanhar o ritmo lento da carrinha! Resolvemos ignorar a bizarra situação até que o inesperado e ofegante sprinter arranja dois sopros para gritar – “Ana de Portugal?” – “Queres ver que a Ana é mais popular que o Cristiano Ronaldo em Baracoa!” Digo eu incrédulo. Entretanto, o motorista pára 🚛. … e o inusitado perseguidor diz ter um quarto para os portugueses! Parece que esteve ao telefone com o nosso hospedeiro de Santiago e trataram da nossa reserva… Com o desconfiómetro ligado… fomos então ver  a casa e, para nossa agradável surpresa, o edifício colonial era realmente muito agradável! Sem perder tempo, abandonamos a bagagem e fomos ao centro histórico. Em cuba todas as cidades têm uma dinâmica muito parecida e a vida das pessoas parece gravitar inevitavelmente em torno de um ponto específico, particularmente de um parque ou praça… É um ponto de encontro onde as pessoas socializam e, as que podem, navegam na caríssima e lenta Internet. É como se fosse aquele espaço onde assenta o bico do compasso e a partir daqui toda a gente decide a sua vida em percursos radiais ou circulares, de onde todos partem e aonde todos regressam. Consequentemente, é também onde os jineteiros montam as ratoeiras para caçarem algumas notas aos turistas incautos e onde tentam engatar algumas turistas intoxicadas pelo licor de banana. Mas é também, onde se dança, canta, bebe e se convive como se convivia quando os telemóveis não existiam…

Assim, já no centro histórico, rodeados por locais, traçamos o nosso arrojado plano – visitar o parque Majayara. Pés ao caminho, caminhamos 20 minutos ao longo da praia de areia preta, depois apanhamos um barco que substitui a ponte que o tufão derrubou no ano passado e finalmente pagamos uma pequena taxa para podermos ir a banhos e visitar o parque. Este lugar é lindíssimo! A bancada arqueológica e o miradoiro oferecem paisagens e experiências da 5ª essência. As praias e a piscina natural no interior de uma caverna valem a pena para refrescar mas não são memoráveis.

DSC02661No dia seguinte, alinhamos numa excursão e fomos ao parque Canõn de Yumuri. Dividimos as despesas de transporte e do guia turístico com um simpático casal francês! Saímos de Baracoa de jipe e depois, numa pequena embarcação, navegamos rio acima por uma passagem apertada entre os contrafortes de uma serra até que chegamos a uma zona de águas rápidas🚣🏾. Atracamos e caminhamos pedra-sobre-pedra para montante. Assim que vimos as melhores piscinas de rio fomos a banhos 🏊🏽.

No regresso, paramos numa fazenda de cacau onde nos explicaram o processo de produção, avaliação e, por último mas não menos importante, as diferentes formas de degustar esta iguaria🍫! Os fazendeiros parecem desfrutar da vida no campo mas também não conseguem esconder alguma frustração e descontentamento com as barreiras económicas imposta pelo governo. Para empresários ou empreendedores, Cuba é como se fosse uma campa aberta onde se enterram todas as ambições e aspirações. Onde as necessidades individuais são castradas em nome de um regime. No entanto, as coisas estão a mudar e rápido. O socialismo, além de pobres, também já produz alguns ricos 💰!

No dia seguinte, alugamos uma bicicleta enferrujada 🚴🏾 e pedalamos por caminhos difíceis até algumas fazendas que produzem cacau e bananas. O cacau é um pouco como eu, também precisa de sombra e as folhas largas das bananeiras são excelentes a guardar-o-sol. Mas o casamento destas culturas não se fica por aqui! Complementam-se muito bem dentro de uma chávena quente ☕️ como nos foi demonstrado por uma simpática fazendeira que nos ofereceu um delicioso chocolate quente com cacau, farinha de banana verde, uma pitada de sal e canela. 😋

O tempo em Baracoa voou! Quando os primeiros galos cantaram, nós abalamos e só paramos em Holguím, contudo não nos demoramos aqui. Pernoitamos e assim que percebemos que a cidade não tem grande encanto, apanhamos um táxi colectivo para Guardalavaca. Quando o navegador e explorador europeu Cristóvão Colombo chegou a estas paragens, pela primeira vez, afirmou que os seus olhos nunca tinham avistado nada tão bonito! Bem, eu não posso atestar a veracidade desta afirmação, mas, aposto que estas são as praias que aparecem nas revistas da especialidade e são também aquelas que curam umas 10 maleitas a quem nelas se banha! A pequena ondulação mistura os tons de azuis e a água translucida acaricia um extenso areal branco que só é interrompido por um pontilhado de elegantes coqueiros. Apesar de não gostarmos muito de banhos de sol, o feitiço de Guardalavaca, aprisionou-nos por 3 dias neste lugar de onde não foi fácil partir 🍸🏝!

Os dias esfumavam-se! Fizemo-nos à estrada, continuamos para norte até Ciego de Ávila 🚕. A planitude, a ausência do cheiro a gasolina queimada e expelida pelos escapes dos velhos carros, tão frequente como desagradável noutras paragens, e o tamanho relativamente pequeno desta cidade foi um convite para passear a pé. A caminhar reparamos nas pessoas e participamos na vida delas; a marchar, tratamos de desfrutar daquilo em que tropeçamos; delicia-mo-nos com os gelados na gelataria Coppelia 🍧; assustamo-nos com os pregões dos vendedores de fruta ambulante – “es el aguacate“; passear a pé permite-nos advertir como é bonito o teatro, como é brincalhão o gato que se esconde por ali 😼, as cores do pôr-do-sol, permite-nos também parar para beber uma pinacolada fresca e deliciosa ou simplesmente não fazer nada e isto, embora simples, foi difícil em outras paragens, como Trinidade ou Santiago de Cuba, que convertem cada uma das interacções entre turistas e cubanos num processo económico, salvo dignas excepções, obviamente. O fato de caminharmos pelas ruas de Ciego de Ávila sem nenhum assédio para comprar ou tentativa de extorsão, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, sem nenhum interesse comercial, sem jinetéiros e sem taxistas abelhudos foi uma lufada de ar fresco! Infelizmente, isto é raro num país que elege o turismo como principal actividade económica e fonte de receitas!

Há noite, a principal artéria, a Bolevard, encheu-se de pessoas alegres, de músicos e bailarinas, de vendedores ambulantes e muito rum… Ás 9 badaladas, fomos ao teatro assistir ao concerto “Terra Prometida”, mas curiosamente e para nosso assombro, fomos barrados 🎵! Obviamente, não ficaram impressionados com o nosso uniforme de verão e praia! Corremos a casa num instante, mudamos de trapos e, esperançosos, retomamos ao teatro. Chegamos a horas e alagados em suor, mas desta vez, tivemos mais sorte, por comiseração, acho eu, deixaram-nos entrar pela passadeira vermelha! Ao que parece era um evento de grande importância, estavam todos vestidos de modo requintado e de acordo com uma etiqueta muito apertada… eles, pinguins de laço e elas, muito glamorosas com vestidos cheios de pompa e circunstância! No entanto, nenhum espectador(a) conseguiu destacar-se mais do que nós! Não só éramos os únicos estrangeiros como também os únicos a falhar redondamente no código de vestimenta… Desta forma e sem querer, dividimos os holofotes e o protagonismo com os músicos. Injusto para eles porque eram brilhantes… 🎸

No dia seguinte, viajamos para Sancti Spiritus e chegamos debaixo de uma tempestade tropical⛈! As ruas ficaram inundadas em segundos e os trovões caiam com violência demasiado perto! O Sr. Roberto, dono de uma loja de artesanato, ofereceu-nos refugio e um chá quente. Enquanto lutávamos, sem sucesso, para manter a água do lado de fora, este bom samaritano contou-nos muitas histórias de cuba, da revolução, de outros viajantes e, com extrema admiração e gratidão falou de Fidel Castro. Apesar das dificuldades, regra geral, os cubanos são nacionalistas orgulhosos. Depois, a chuva passou e fomos todos jantar a um pequeno restaurante local. A conversa foi boa mas a ementa, invariavelmente, foi aquilo a que eles chamam de piza com queijo 😟!

No dia seguinte, passeamos pela cidade, também ela perfeitamente caminhável e, por isso, mas não só, é agradável, encantadora e fotogénica, como aliás toda a ilha de cuba para ser justo! Seja qual for o motivo, bom ou mau, tudo parece digno para fotografar, blogar ou instagramar! Depois da chuva, foi o sol que nos empurrou para o refugio da biblioteca onde acabamos por conhecer uma bibliotecária especial. Deu-nos uma aula de literatura cubana e ofereceu-nos alguns livros dos principais escritores e poetas do país 📚! Como estávamos a terminar as férias e a precisar de arranjar espaço nas malas para os souvenirs, oferecemos à senhora umas roupas já gastas em forma de agradecimento e partimos para o nosso último destino em Cuba, Havana. 🚌

Havana tem dois grandes distritos, Havana Centro e Havana Vieja. A nós, de um ao outro, não nos consome muito tempo, é uma meia hora ou pouco mais… no entanto, é ir de um mundo ao outro, do velho ao novo, do passado ao presente! Havana Vieja tem praças reabilitadas com fachadas de cara lavada, ruas cuidadas e bonitas, hotéis e restaurantes caros para os turistas. Mas o resto da cidade, onde moram os residentes, está literalmente em ruínas, podre, decadente e demasiado frágil para ser recuperada…

Apesar de tudo, Havana é uma capital com carisma! Com muitos ritmos, cores e vida! Tem alguns museus razoáveis, uma arquitectura colonial envelhecida mas preciosa, uma catedral simples mas requintada e uma cultura muito particular, única e, talvez por isso, fascinante.

No bar “La Bodeguita”, famoso pelos mojitos que o famoso escritor Ernest Hemingway ali bebia e por essa razão agora apinhado de turistas, pedem-nos 5 dólares por um mojito! Desencorajados pela fila e pelo preço absurdo, aguentamos a cede e no também famoso mas muito menos apinhado Malecon, enquanto nos deleitamos com as cores do crepúsculo e somos embalados pelo som das ondas do mar, sorvemos dois mojitos 🍹por meia dúzia de cêntimos!

Na hora de partir não enchemos a mala com muitas lembranças, até porque, apesar de cuba ter muito artesanato e suvenirs, parece tudo muito igual! O próprio Cheguevara, outrora símbolo da revolução e defensor do socialismo agora, ironicamente, aparece estampado em todos as bugigangas e quinquilharias para o consumo capitalista! De maneiras que trouxemos, principalmente e quase só, memórias…

A hora do regresso a casa chegou. Terminavam as férias e só nos restava chegar ao aeroporto. A simpática hospedeira, gentilmente, chamou um táxi ☎️. Entretanto, fomos esperar para a rua e quando a viatura finalmente chega avaria logo ali, nas nossas barbas! – Oh sorte; diz a Ana. A cidade estava escura e silenciosa e enquanto o taxista tentava reanimar a máquina visivelmente acabada e sem qualquer sinal de vida, nós, como tínhamos um avião para apanhar, mentalmente demos início à contagem decrescente do tempo e começamos a ficar, digamos… preocupados! Por sorte os nossos hospedeiros vieram à janela e chamaram outro táxi. Este não avariou, apesar de podre, no entanto, deixou-nos no terminal errado! Estávamos a ver que não embarcamos na aeronave 🛩 a tempo de fugir ao furacão Irma que, chegaria 2 dias depois, com proporções bíblicas para fustigar Cuba e outros países!

P.S.: Nós não viajamos pela aculturação ou apropriação cultural, no entanto, gostamos de autenticidade e de experienciar diferentes realidades, gostamos de visitar e ser visitados por outras sensibilidades, mas isso, não nos foi muitas vezes permitido! Por questões politicas e ou económicas em Cuba, inúmeras vezes, sentimo-nos turistas capitalistas a fazer uma visita guiada a um parque temático. Existe cuba para os cubanos e existe uma realidade paralela para os visitantes… Ainda assim; se vale a pena visitar Cuba? Claro que sim.

parte 1  … 🚌🇨🇺

DanielRibas, Cuba, Agosto de 2017

 

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