México (2ª parte) 🇲🇽

Pouco depois de o sol nascer em Tulum, com pedaladas madrugadoras, batemos a estrada à velocidade estonteante de um caracol… ora em ziguezague evitando alguns buracos, ora a serpentear os cães esdrúxulos que se passeiam em matilha ao deus-dará, da periferia para o centro os bairros ficam gradualmente mais enobrecidos, mas não necessariamente mais bonitos e, já na avenida principal fomos raspando com os olhos a superfície à nossa frente como quem raspa uma raspadinha. Percebemos que a nossa sorte não estava ali e não nos demoramos. Avançamos pela ciclovia que se estende até às praias 🏖 e quando avistamos o mar já o sol castigador do meio-dia estava por cima de nós!  Queríamos visitar as ruínas Maias de Tulum antes das aguardadas multidões. Tínhamos um plano sólido. Todavia desmoronou quando poisamos o olhar no mar que se estende até ao céu. Encontram-se num horizonte distante e há uma diferença entre os dois azuis difícil de distinguir! Deitamo-nos na água como se lhe pertencêssemos, o sal carrega-nos e flutuamos sem esforço. O tempo passa sem medida até ao instante em que nos levantamos. Há luz no interior da água e há fogo na areia incandescente que os nossos pés atrasados e apressados pisam quando demos pela hora!

Chegamos às ruínas da cidade portuária Maia com uma fila desencorajadora! Depois da merecida espera, compramos dois bilhetes e entramos para explorar as famosas estruturas… de dimensões modestas, mas bem conservadas que se elevam junto à costa ao longo de uma deslumbrante linha de praias! Com os olhos fitos nas pirâmides e na sedutora paisagem por sorte não pisamos nenhum dos novos habitantes desta cidade Maia – as enormes e pachorrentas iguanas que apreciam o dia e colhem os raios solares inamovíveis como troncos caídos de uma árvore!

No dia seguinte fomos visitar as Ruinas de Coba. Descemos do autocarro na última paragem e munidos com água e repelente desaparecemos nos trilhos pedestres da densa floresta tropical. Uns 20 minutos depois a primeira pirâmide emerge diante dos nossos olhos. As outras foram-se sucedendo em catadupa e o puzzle da misteriosa cidade Maia foi-se construindo também no nosso imaginário, até que, sem pré-aviso, no meio de uma grande clareira, do chão até às nuvens, eleva-se a principal atração, a impressionante pirâmide – Nohoch Mul! Subimos os inúmeros e traiçoeiros degraus. Chegamos ao topo sem pernas e sem fôlego para articular 2 palavras! Repousamos em cima de duas pedras quentes abraçados por duas cores, por baixo, o verde das árvores e, por cima, o imenso azul do céu. Infelizmente, de surpresa, o tempo roubou-nos este momento. O vento arrastou nuvens negras para cima de nós. Descer com as pedras secas já é suficientemente arriscado, por isso, sem tempo para fotografias, descemos o mais rápido possível. Quando começou a chover a potes ⛈ já estávamos no interior da floresta. A roupa, supostamente, impermeável e a, aparente, impenetrável copa das árvores fraquejaram quase instantaneamente! Sem qualquer abrigo ficamos expostos e tão ensopados como se estivéssemos a tomar banho de agua fria com a pressão do chuveiro no máximo! Chegamos ao hostel a tremer de frio e depois de mais um banho, desta feita de agua quente, adormecemos embalados pela cantora mexicana, Carla Morrison – “me complace amarte, disfruto acariciarte y ponerte a dormir…

Depois da tempestade vem a bonança… portanto, o dia seguinte nasceu calmo e resplandecente. Ideal para visitar o surpreendente Parque Natural de Xcasal. Na entrada pediram-nos apenas uma doação para a manutenção do espaço e preservação das tartarugas 🐢. Caminhamos por entre palmeiras até ao oásis com um cenote com água tão cristalina que mais parecia ser uma miragem! Mergulhamos e só saímos quando já nos faltava força para respirar à superfície. Procuramos a sombra de uma palmeira para fazermos um piquenique e os enormes caranguejos ermitas juntaram-se ao banquete! Acabamos o dia com uma massagem de corpo e alma no azul turquesa do mar com agua mais quente que a temperatura ambiente!

Hoje, acordamos animados e revigorados. Falaram-nos bem de uma lagoa que fica nas redondezas! Fomos até lá de táxi coletivo. Largaram-nos no meio do nada, e até à lagoa, Kaab Luum, vimos tarântulas gigantes 🕷e, do meio da selva, chegavam-nos barulhos assustadores que pareciam ser de animais de grande porte. Não nos apeteceu espreitar para confirmar as suspeitas! Quando chegamos à lagoa – um grande buraco em forma de “olho” com 80 metros de profundidade no centro, largamos as mochilas e saltamos para a água. No regresso a Tulum, tivemos sorte… uma família de mexicanos ofereceu-nos boleia. 

O dia da partida e chegada a Puerto Morelos foi mais um daqueles dias de inesperadas maleitas. Tenho manchas castanhas na pele, a Ana tem o que parece ser herpes labial ou uma queimadura solar para não falar da estranha dor no maxilar inferior que lhe faz companhia já há alguns dias! Ainda assim, demos entrada no nosso novo destino bem-dispostos. A nossa hospedeira do Airb&b recebeu-nos muito bem. Na manhã seguinte, saímos cedo para fazer snorkling 🐠 com uma família de Ingleses. Disseram-nos que é a melhor hora por haver menos barcos. La fomos nós e foi bem divertido… À tarde, fomos a banhos numa praia à frente de um bar com música ao vivo. Muito agradável, mas, o México não nos dá tréguas… a Ana ficou enjoada do snorkeling e, além disso, eu estava com um ligeiro desarranjo intestinal! Sem grandes demoras apanhamos o miniautocarro para casa.

Para nos despedirmos do México fomos passar o dia ao Cenote Verde Lucero. Descemos do autocarro com um mexicano que trabalhava no cenote. Pelo caminho, subitamente, aparece mais uma tarântula! — “Podia ser pior, por exemplo, a cobra das quatro narinas é mais venenosa” — disse ele. Felizmente não vimos nenhuma e como chegamos cedo tínhamos o cenote quase só para nós. Demos uns saltos, umas braçadas, uns mergulhos, andamos de tirolesa e depois fomos almoçar com um casal francês 🌮.

Na última noite, a misteriosa e simpática hospedeira ofereceu-nos uma bebida alcoólica com umas ervas esdrúxulas no interior. Como na manhã seguinte, planeávamos sair antes de o nascer-do-sol fizemos um brinde de despedida🍸. A Ana agarra no cálice como se estivesse a segurar um rato morto pelo rabo, mas eu não me fiz rogado e no primeiro travo vaporizo a sala! Depois de recomposto fui ao segundo brinde com mais prudência. Dormimos profundamente, vai-se lá saber porquê? Acordamos com o alarme no meio da noite e sem outros barulhos desnecessários saímos na ponta dos pés para não acordar a patroa que dormia no quarto adjacente, contudo, os outros hospedes, dois gatos e um cão muito velho, acordaram e fizeram questão de nos acompanhar até à porta. Afagamos o pelo aos nossos atenciosos anfitriões patudos e sorumbáticos, arrastamos as malas para o meio das trevas – uma rua sem luz e, ainda, sem viva-alma! A Ana diz-me que devíamos ter cuidado com o temperamental cão da vizinha e o maroto deu-lhe imediatamente razão🐕! Sorrateiramente, o feroz animal, escondido na penumbra da noite, aparece do nada e atirasse a mim! Felizmente, o predador embusteiro cometeu um erro de cálculo e marrou de frente com a minha mala! Fugimos a sete pés e chegamos à paragem do autocarro um pouco sobressaltados.

México, agosto de 2017
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