Indonésia (2ª parte)

A urbe de Yogiakarta é uma manta que assenta sobre várias camadas de história javanesa. Não é uma cidade prototipo para aparecer num postal, é suja, escura, esconsa e labiríntica num entanto, por debaixo do sarro, assoma uma elegância e nobreza sem paralelo. No meio das ruas de portas abertas acolhe-nos uma beleza desconcertante. Com o “Grab”, uma especie de Uber mas que também funciona com moto-táxis, visitamos centros culturais de artes tradicionais javanesas, como batique, dança, teatro, música, poesia e espetáculos de marionetas. Fomos ao confuso mercado Malioboro, um núcleo bruto e visceral de vida e comercio; entramos no Kraton, um complexo de edifícios muralhados que compreendem o palácio do sultão; passeamos no bairro Taman Sari, fotografamos a espetacular arte de rua e espreitamos o famoso “castelo de água”; vagueamos pelo emaranhado de ruelas que confundem a visão, intoxicam o olfato e surpreendem o palato. A cidade é um organismo vivo com vários tentáculos que seduzem e aprisionam quem a visita. O calor e a humidade apenas intensificam esse abraço visceral. Para fazermos uma pausa neste ritmo vertiginoso e frenético fugimos de autocarro para vermos o nascer-do-sol no maior templo budista do mundo – Borobudur. Um lugar, mágico e grandioso. À tarde, fomos assistir ao por-do-sol no templo Prambanam. Considerado um dos templos hindus mais bonitos apesar de ter sido parcialmente destruído devido ao fanatismo religioso! No dia seguinte, foi com nostalgia que dissemos até sempre!

Pernoitamos na cidade de Malang e, por acaso, acabamos por tropeçar num bairro multicolorido que ainda não aparece nos guias – o Kumpung Pelangi, também apelidado “vila do arco-íris”. O ponto alto da nossa curta paragem nesta cidade. Seguimos viagem com um motorista que não poupou a buzina e ignorou por completo as regras de trânsito 🚌. O clamor dos engarrafamentos zumbia por todos os lados e a fauna javanesa vociferava a plenos pulmões. Descemos pálidos, mas aliviados em Probolingo. Depois de fugirmos ao assédio dos agentes de turismo, um bando de salafrários desonestos, apanhamos uma carrinha-táxi para a vila de Cemoro Lawang, no sopé do Bromo. 🌋

Assim que chegamos metemos pés ao caminho. Primeiro foi preciso atravessar um vasto “mar de areia”. Um deserto imenso onde ninguém segue nem é seguido porque o vento usa o pó para apagar as pegadas. Sem caminho ou rastos, valeu-nos o maps.me 📱.  Quase sozinhos, atravessámos uma paisagem verdadeiramente lunar, monocolor e inóspita mas, ao mesmo tempo, misteriosamente atraente. Cautelosamente, fomos subindo um dos vulcões mais ativos e venerados da Indonésia sem saber o que esperar! Chegamos ao topo e… nas alturas, perto do abismo, onde o assombro se conjuga com vertigem e risco observamos atónitos a enorme cratera que arrota enxofre e ruge como se estivesse furiosa. Não sabemos para onde olhar nem onde podemos pisar, não há placas informativas para não estragar o cenário. Intenso e absolutamente memorável.

No dia seguinte, ergemo-nos da cama às 3 da manhã. Debaixo das estrelas, rumamos montanha acima. Faltavam 3 horas para o nascer-do-sol e pela frente tínhamos uma parede para conquistar! Duas horas depois, a montanha fica mais exigente, o caminho mais estreito e picado. Quando, finalmente, alcançamos o famoso mirador King Kong estávamos a ferver, a pingar suor e com as roupas ensopadas mas, em segundos, ficamos gelados… uma expectável reviravolta. Há hora prevista, o dia nasce e os primeiros raios solares pincelam com tons de laranja um vale de algodão infinito rasgado por duas distantes crateras. Estávamos acima das nuvens! Um dos vulcões despertou furioso e presenteou-nos com uma série de espetaculares explosões de cinza 🌋. Uma brutal exibição da prodigiosa natureza e um presente bem merecido 🎁.

1ª Parte

Continua…

Daniel, agosto de 2018

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